sexta-feira, 7 de julho de 2017

10 Grandes Filmes Gótico-Românticos



"É curioso que esse rótulo me persiga... Deve ser alguma peculiaridade da cultura americana, onde você é rotulado por alguma característica quando é muito jovem, isso gruda em você para o resto da vida, não importa o que você faça. hoje, se eu sair na rua vestido de palhaço, rindo à toa, ainda vão dizer que tenho uma personalidade sombria." - Tim Burton


por Renan Caíque


Antes de tudo, devo definir o que eu classifico como filmes "gótico-românticos". O "romântico" não vem da atual concepção deste termo, que acabou se tornando vazio e vulgar demais; e sim do Romantismo, movimento artístico e filosófico surgido no séc. XVIII na Europa, sendo alguns dos seus principais representantes na literatura Goethe, Victor Hugo, Lord Byron, Friedrich Schiller, Percy Shelley, John Keats, Alfred de Musset, Alphonse de Lamartine, e no Brasil, Álvares de Azevedo.
Entre as várias características deste expressivo movimento, encontravam-se o sentimentalismo exagerado, a idealização do amor e da mulher, a preferência por ambientes noturnos e escuros, o apego à solidão e à melancolia, o tédio constante, a dor existencial e o desejo pela morte como forma de se libertar.
E o "gótico" a que me refiro vem da Literatura Gótica, surgida no séc. XVIII,  através de autores como Anne Radcliffe, William Beckford, Mary Shelley, Bram Stoker, Edgar Allan Poe, Baudelaire, e mais tarde Anne Rice e Lovecraft. Apresentava como principais características cenários obscuros e solitários como castelos antigos, catedrais, cemitérios e florestas isoladas; mistérios, o medo, o terror, a beleza sombria, a morte. A Literatura Gótica tinha uma tênue ligação com o Romantismo e vários autores oscilaram entre os dois movimentos, muitos misturando elementos de ambos em suas obras.
Pois bem, se todas as características desses dois movimentos ou várias delas fossem aplicadas ao cinema, quais filmes poderiam se enquadrar nesse estilo? Eis o que proponho apresentar neste post, alguns que se encaixam em tal descrição:

10 - O Fantasma da Opéra:



Baseado no romance "O Fantasma da Ópera" (1909-1910), de Gaston Leroux, este é um drama musical de 2004, dirigido por Joel Schumacher, que fala sobre o amor, a solidão e o preconceito, através de belas canções, compostas por Andrew Lloyd Webber. Na história, a jovem Christine Daae (Emmy Rossum), que fazia parte do coral de uma companhia de teatro, um dia, faz uma apresentação como protagonista por conta da ausência da cantora que era responsável por esta parte. Christine faz sucesso em sua estreia por seu talento, chamando a atenção do Visconde de Chagny (Patrick Wilson), o novo patrocinador da companhia. O Visconde e Christine se conheceram ainda crianças, mas ele apenas a reconhece na encenação da ópera. Mas o que nem ele nem ninguém da companhia sabem é que Christine tem um misterioso professor de canto, que se esconde nas sombras e acompanha tudo o que acontece no teatro: o Fantasma da Ópera (Gérard Butler). 
   O livro é lindo e esta adaptação ficou ao nível da obra literária. As vozes, os diálogos, as atuações, as vestimentas, os cenários sombrios, o clima sentimental e poético, tudo isso faz deste filme uma das melhores representações do gótico e do romântico na Sétima Arte.



9 - Amantes Eternos:


"Only Lovers Left Alive", de 2013 é do diretor Jim Jarmusch. E é "um filme de vampiros", o que faz a primeira vista se pensar antes de assistir que provavelmente será clichê, devido à saturação do tema no cinema ao longo da história. E em parte é. Mas não deixa de ser um filme encantador e profundo. Basicamente, conta a história de um amor eterno entre dois vampiros eruditos, Eve (Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston), que vivem cansados da sociedade atual e de sua decadência. Adam, principalmente, que se refere aos humanos como "zumbis", tem muitas características de um poeta byroniano e vive praticamente recluso e em completo tédio. E isto é demonstrado por meio da trilha sonora melancólica e arrastada, a lentidão, as cenas escuras e toda a atmosfera soturna. Interessante também são as várias referências culturais por exemplo a Edgar Allan Poe, Baudelaire, Schubert, Gustave Flaubert, Shakespeare, Newton, entre outros.


8 - O retrato de Dorian Gray:



Primeiramente, sim, já li o livro e acho-o maravilhoso, é um dos meus preferidos. E apesar de ser pouco fiel, para mim, esta adaptação cinematográfica de 2009 é a melhor já feita, sendo que esta é a 16ª já feita . A belíssima direção é de Oliver Parker. A história é simples: Dorian Gray (Ben Barnes) é um belo jovem privilegiado que deseja que sua imagem em uma pintura envelheça em seu lugar. O que ele considerava uma vantagem, se torna uma maldição, e quanto mais velho e corrupto Dorian fica, o retrato guardado no porão se torna um monstro, enquanto sua imagem física permanece intacta.
Novamente o gótico e o romântico se unem de forma perfeita no cinema! Com certeza a melhor atuação de Ben Barnes, e o melhor Dorian Gray do cinema. Colin Firth também está ótimo como o venenoso Lord Henry. Talvez alguns erros do filme sejam ter omitido alguns dos diálogos mais interessantes do livro e ter feito algumas modificações desnecessárias, mas continua sendo um ótimo filme pra ver e rever várias vezes.


7 - O morro dos ventos uivantes:


"O Morro dos Ventos Uivantes" é um filme de 1992 dirigido por Peter Kosminsky, baseado na obra de mesmo nome, de Emily Brontë. No final do século XVIII, em uma área rural da Inglaterra, surge com o tempo uma violenta paixão entre Catherine Earnshaw (Juliette Binoche) e o cigano Heathcliff (Ralph Fiennes), seu irmão adotivo. Criados juntos, eles são separados pela morte do pai de Catherine e a crueldade de como Hindley Earnshaw (Jeremy Northam), seu irmão, trata Heathcliff. Quando Heathcliff fica sabendo que ela vai casar com Edgar Linton (Simon Sheperd), um homem rico e gentil, Heathcliff foge para fazer fortuna, ignorando o fato de que Catherine o ama, e não o futuro marido. Dois anos depois, Heathchliff retorna para vingar-se de Hindley e Edgar e do abandono que Catherine lhe infligiu.
Logo que terminei de ler o livro, procurei uma adaptação cinematográfica para assistir e me decepcionei ao ver a de 2011, de Andrea Arnold. Mas, depois, quando vi este de 1992, fui rapidamente seduzido. Os protagonistas fizeram um lindo trabalho em seus papéis, neste que é um dos filmes mais puramente românticos que já vi. Do início ao fim são juras de amor eterno, lágrimas, mortes, vinganças... enfim, uma bela tragédia poética que conseguiu manter perfeitamente o clima do livro. Recomendadíssimo para quem gosta do estilo.


6 - Edward mãos de tesoura:



E é claro que não poderia faltar uma obra do mestre Tim Burton! Este clássico de 1990 livremente inspirado em "Frankenstein" de Mary Shelley, une de maneira ímpar algumas características da Literatura Gótica(a estética dark, o bizarro, a solidão do protagonista por ser diferente, o contraste entre lugares escuros e claros, a noite e o dia) e do Romantismo(a subjetividade e sentimentalismo, a sensibilidade o amor incondicional e inalcançável de Edward por Kim), e ainda com uma dose de humor, como só Burton sabe fazer.
Sinopse: Peg Boggs (Dianne Wiest) é uma vendedora da Avon que acidentalmente descobre Edward (Johnny Depp), um jovem que mora sozinho em um castelo no topo de uma montanha e que na verdade foi criado por um inventor (Vincent Price), que morreu antes de dar mãos ao estranho ser, que possui apenas enormes lâminas no lugar delas. Isto o impede de poder se aproximar dos humanos, a não ser para criar revolucionários cortes de cabelos, mas ele dá vazão à sua solidão interior ao podar a vegetação em forma de figuras ou esculpir lindas imagens no gelo. No entanto, Edward é vítima da sua inocência e, se é amado por uns, é perseguido e usado por outros.


5 - Confissões de um jovem apaixonado:



Este filme de 2012 é uma adaptação do romance auto-biográfico "A Confissão de um filho do Século" de Alfred de Musset, um dos maiores nomes do Romantismo literário. E ainda que o filme não tenha nem de longe a beleza e a riqueza do livro, vale muito a pena ser visto. Eis a sinopse: Em 1830, na cidade de Paris, Octave (Peter Doherty) vive depressivo, desde que foi abandonado por sua amante. Quando seu pai morre, ele volta ao seu país de origem, onde encontra Brigitte (Charlotte Gainsbourg), uma viúva dez anos mais velha do que ele. Octave se apaixona perdidamente, mas não consegue se entregar facilmente a este amor.
É bem lento, arrastado e muitas vezes pessimista, mas com diálogos belos e reflexivos e até mesmo  com algo de política. A fotografia e a trilha sonora são tétricas e lindíssimas, o que nos permite sentir um pouco a angústia do protagonista, ávido pela morte quando fica ciente da incorrespondência de seus amores. É um filme dramático, sensível e extremamente poético. Recomendado aos amantes da Arte romântica e lúgubre em geral.

4 - O Corvo:



Quando eu conhecia este filme apenas por nome, imaginava que fosse um daqueles blockbusters vazios, onde há ação e violência do início ao fim. Quando dei uma chance e resolvi assistir a ele, percebi que estava imensamente equivocado: o filme é lindo e muito poético!
O Corvo é uma adaptação cinematográfica de 1994 da história em quadrinhos homônima de James O'Barr e foi dirigido por Alex Proyas. Na história, Eric Draven e sua noiva Shelly são brutalmente assassinados na Noite do Demônio (Devil's Night), a noite que precede o Halloween. Um ano depois, Eric volta do mundo dos mortos guiado por um corvo. Inicialmente sem lembranças do ocorrido, volta ao seu antigo loft onde recobra as memórias e a dor da morte. Eric pinta em seu rosto os traços de um palhaço feliz e distorcido e inicia uma caçada para vingar-se de seus assassinos. Os bandidos são mortos um a um, até que Eric, com o auxílio do sargento Albrecht, se encontra com o maior criminoso da cidade, Top Dollar e a sua irmã, que entretanto conseguiu apanhar o corvo. Ela descobriu que o sofrimento do corvo (pássaro) seria transposto para Eric, colocando assim a sua imortalidade em perigo.
Um dos charmes do filme é o estilo dark característico dos romances góticos e outro a idealização do amor, que perdura mesmo após a morte, característica típica do ultrarromantismo. Ah, e nem precisava dizer que o título veio do clássico poema de Edgar Allan Poe; aliás há uma cena em que o protagonista recita versos de Poe do referido poema.


3 - Drácula de Bram Stoker:


Este é um dos raros casos em que a adaptação cinematográfica talvez tenha superado a obra literárias e é uma das melhores representações do gótico no cinema: vampiros, castelos medievais, cemitérios, amores eternos, noites sombrias, tudo contribui para o clima a la E. T. A. Hoffmann e de outros escritores góticos.
O filme é de 1992, e é dirigido pelo renomado  Francis Ford Coppola. O filme conta a história do líder romeno Vlad Tepes (Drácula), que, ao defender a igreja cristã na Romênia contra o ataque dos turcos, tem sua noiva Elisabetha enganada: esta crê que seu amado morreu e então atira-se no rio chamado "Princesa". Vlad, ao retornar da guerra e constatar a morte de sua amada, e condenada ao inferno (pois se matara), renuncia e renega a Deus, à igreja e, jurando só beber sangue a partir daquele momento, sendo assim condenado à sede eterna, ou seja, ao vampirismo.Quatro séculos se passam, e ele redescobre a reencarnação de Elizabetha, em Londres, agora conhecida como Wilhelmina Murray (Mina). Jonathan Harker, noivo de Mina, parte a trabalho para a mansão do Conde Drácula, onde irá vender dez terrenos na área de Londres para este estranho Conde. Lá é feito prisioneiro, enquanto o conde se encaminha à Inglaterra para reencontrar sua amada. O resto do filme consiste em uma busca desesperada e sofrida do amante para reconquistar sua amada.


2 - Frankenstein de Mary Shelley:



"Frankenstein de Mary Shelley" é um filme de 1994, dirigido por Kenneth Branagh, com produção de Coppola, e tendo no elenco o próprio Branagh, Robert de Niro, Tom Hulce, Helena Bonham Carter, Aidan Quinn, entre outros. Trata-se de uma adaptação da obra Frankenstein, da escritora Mary Shelley, e é talvez a adaptação mais fiel desta obra-prima. Sinopse: Em 1794, um explorador no Ártico ao tentar abrir caminho através do gelo encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh). Logo depois os cães decidem atacar uma criatura (Robert De Niro), que os mata rapidamente. Assim, Victor decide contar-lhe, como tudo começou, quando ele foi estudar medicina em Ingolstadt, deixando para trás sua noiva e levando consigo uma única obsessão: vencer a morte. Na faculdade, ao discordar de um renomado mestre, acaba chamando a atenção de outro, que revela seus experimentos em reanimar tecidos mortos. No entanto, este pesquisador assassinado e o culpado pelo crime enforcado, então Victor decide colocar o genial cérebro do mestre no vigoroso corpo do assassino, mas as conseqüências de tal ato seriam inimagináveis.
É um filme muito bonito visualmente, com ótimo elenco e profundo, que foge do estilo daquelas horríveis adaptações mais antigas que não tem nada a ver com o livro. Um verdadeiro clássico do cinema gótico!


1 - Entrevista com o vampiro:



Acidentalmente um repórter começa uma conversa com um homem que diz ser um vampiro com duzentos anos e conta a trajetória de sua vida, desde a época em que ainda não era vampiro e como foi infectado pelo vampiro Lestat, com quem teve grandes aventuras mas também grandes desavenças. Eis a sinopse, desta obra-prima da sétima arte. "Entrevista com o Vampiro" é um filme de 1994 baseado no livro homônimo da escritora Anne Rice, estrelando Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Christian Slater e Kirsten Dunst, e dirigido por Neil Jordan.
Com certeza, para mim, é o melhor filme de vampiros já feito e o filme mais ultrarromântico de todos os tempos. Vê-lo é como ler um livro de poemas de Lord Byron: uma viagem pelo romantismo obscuro, de paixões seculares, sentimentalismo exacerbado, anseio pela morte, spleen e solidão. Isto com atuações primorosas, direção artisticamente perfeita, trilha sonora clássica e melancólica, e muita filosofia e poesia. Mais que um filme de vampiros, é uma obra de arte refinada para ser apreciada pelos amantes das artes.

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