segunda-feira, 26 de junho de 2017

"Jane Eyre" de Charlotte Brontë

"Eu me lembrava de que o mundo real era vasto, e que uma
quantidade enorme de esperanças e medos, de sensações e
emoções, estava à espera daqueles que ousassem sair por
ele afora, buscando, em meio a seus perigos, o verdadeiro
conhecimento do que é a vida." - Jane Eyre

por Renan Caíque


É tarefa difícil fazer uma resenha de um grande clássico da literatura; mais difícil ainda é quando este clássico é um dos seus livros favoritos, mas tentarei:


"Jane Eyre", escrito e publicado em 1847 por Charlotte Brontë(1816-1855), é um romance que conta a história de Jane, órfã de pai e mãe, que vive infeliz em meio a parentes que a odeiam. Aos 11 anos, Jane é enviada para um colégio interno, onde conhece a amizade, a afeição e os seus primeiros momentos de júbilo, apesar do sofrimento que lá passa. Aos 16, torna-se professora lá, e aos 18, sai do colégio para trabalhar como tutora da jovem Adele, menina órfã de mãe, e protegida de Mr. Rochester, um homem rico, de charme singular, misterioso e sombrio, um verdadeiro arquétipo do herói byroniano. A vida em casa não é muito calma, pois comumente ouvem-se gritos, vozes estranhas e lamentos vindos de uma ala afastada da casa, e os criados aparentam conhecer algum tenebroso segredo, o que deixa Jane intrigada. Ela, em pouco tempo, fica confusa sobre os sentimentos diversos que cultiva pelo patrão, e em torno disso surgem muitas surpresas, lágrimas e tragédias... mas também alegrias inesperadas.


Com várias citações de Shakespeare e da Bíblia, e influência nítida de Lord Byron, Charlotte Brontë escreveu um belíssimo romance romântico que não é "uma simples história de amor clichê", e sim uma história profunda, reflexiva e comovente, além de ser uma obra precursora do Feminismo, ao quebrar aquele esteriótipo da mulher submissa, frágil, supérflua e retratar a sua emancipação, em oposição aos romances de Jane Austen(1775-1817), onde as mulheres eram um mero adorno social, obrigadas a se casar, para garantir a sua sobrevivência. Esta era a interpretação de Charlotte Brontë na época, embora hoje em dia haja visões diferentes e Jane Austen seja inclusive considerada também feminista por grande parte dos seus leitores.


O livro é uma análise dos sentimentos humanos feita através do olhar observador da protagonista Jane Eyre em relação às outras pessoas da trama, ao mundo por ela conhecido e a ela mesma; tudo por meio de pensamentos, diálogos e descrições, ora românticas, ora sarcásticas porém sempre inteligentes e interessantes de se ler. As personalidades foram criadas com tamanha maestria, que as personagens parecem vivas e são capazes, não raramente, de causar ao leitor diversas reações: simpatia, repugnância, desprezo, encanto, amor, ódio, saudade, etc; e quando lemos é como se fizéssemos parte da história e sentíssemos a angústia de Jane e das outras personagens.


E, apesar de o livro ser relativamente extenso, em momento algum torna-se prolixo ou enfadonho; muito pelo contrário, prende a atenção do leitor do início ao fim, com um certo suspense e uma escrita magistral e única, misturando características da Ficção Gótica, tais como ambientação em castelos, o clima de mistério, a tragicidade dos personagens, conflito entre a luz e as trevas e o bem o mal, e características do romance sentimental de autores como Goethe e Alfred de Musset.

"Jane Eyre" é uma obra-prima que ficou eternizada não sem motivo, e que, embora tenha sido escrita há mais de 150 anos, ainda surpreende pela imensa originalidade e beleza; é um daqueles livros que provavelmente se você ler, jamais se esquecerá. Curiosamente, o romance alcançou tanto êxito logo que foi publicado, esgotando-se rapidamente, que foram feitas no mesmo ano, mais três reimpressões. Foram feitas diversas adaptações cinematográficas de "Jane Eyre":

Cena do filme Jane Eyre de 1944 com
Joan Fontaine no papel de Jane
Cena do filme Jane Eyre de 2011 com
Mia Wasikowska no papel de Jane





















1934 - "Jane Eyre", dirigido por Christy Cabanne, estrelado por Colin Clive e Virginia Bruce
1943 - "I Walked with a Zombie", dirigido por Jacques Tourneur, estrelado por Tom Conway e Frances Dee
1944 - "Jane Eyre", dirigido por Robert Stevenson, estrelado por Orson Welles e Joan Fontaine
1950 - "Jane Eyre"(Filme para TV), estrelado por Charlton Heston
1952 - "Sangdil, a Hindi version also known as Jane Eyre", dirigido por R. C Talwar, estrelado por Madhubala
1956 - "Jane Eyre"(Filme para TV), estrelado por Daphne Slater
1956 - "Mei Gu", dirigido por Chun Yen, estrelado por Lin Dai e Chun Yen
1963 - "El Secreto"(Telenovela), estrelada por Magda Guzmán
1969 - "Shanti Nilayam", dirigido por G.S. Mani, estrelado por Kanchana
1970 - "Jane Eyre", dirigido por Delbert Mann, estrelado por George C. Scott and Susannah York
1972 - "Shanti Nilayam", dirigido por C. Vaikuntarama Sastry, estrelado por Anjali Devi
1978 - "El Ardiente Secreto" (Telenovela), estrelado por Daniela Romo
1983 - "Jane Eyre"(Série para TV), dirigido por Julian Charles Becket Amyes, estrelado por Sian Pattende
1996 - "Jane Eyre", dirigido por Franco Zeffirelli, estrelado por William Hurt e Charlotte Gainsbourg
1997 - "Jane Eyre", dirigido por Robert Young, estreado por Ciarán Hinds and Samantha Morton
2011 - "Jane Eyre", dirigido por Cary Fukunaga, estreado por Mia Wasikowska e Michael Fassbender

E para quem não sabe autora Charlotte Brontë era a irmã mais velha das também escritoras Emily Brontë (1818-1848, autora de "O morro dos ventos uivantes") e Anne Brontë (1820-1849, autora de "A Inquilina de Wildfell Hall" e "Agnes Grey"). Charlotte lançou outras obras embora de bem menor importância: "The Green Dwarf, A Tale of the Perfect Tense"(1833)", "Shirley"(1849)", "Villete"(1853), "O Professor"(1857) e o inacabado "Emma"(1860)

Um comentário:

  1. Li Jane Eyre recentemente. Confesso que a história me emocionou (não sou emotiva). Achei linda a trama, os personagens são verdadeiros, a história prende e cativa.

    Ótima escolha para uma bonita resenha!

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