segunda-feira, 13 de maio de 2013

Na solidão de um triste cemitério(Conto)

   
(O dia da morte, de William Adolphe Bouguereau)



Na solidão de um triste cemitério


Já passava da meia-noite. Era inverno. Fazia frio em demasia. O silêncio reinava em toda a Paris, de 1880.
Um jovem chamado Valério, sozinho em um cemitério, lia deveras encantado, versos de Lord Byron, alumiado tão-somente pelo suave brilho da Lua.
O vento soprava gelidamente, dispersando as flores murchas que jaziam, banhadas de lágrimas, sobre os sepulcros. De súbito, o jovem ouviu algo naquela penumbra melancólica. Neste momento, já começara a chover ternamente. Ele fechou o livro e guardou-o num bolso de seu sobretudo; e procurando ouvir de onde vinha e o que era o som, principiou a vaguear pelo cemitério, afinal, ele sempre ficava em plena soledade!
À medida que andava, aproximava-se o som, e ele percebia que era um violino, e o quão bela e doce era a canção tocada na escuridão. Ah, porém, a música também era tão tétrica e fúnebre, que Valério, comovido, sentia vontade de chorar! Parecia a tristeza eterna de uma alma lutuosa, vertida em notas doces de melancolia...
Ao longe, ele viu uma jovem que tocava violino tristemente, sobre um túmulo e sob um enorme cipreste. Era pálida, cabelos e olhos negros, usava trajes também negros e maquiagens obscuras. Sua imagem era lânguida e merencória, porém de um encanto infindável. Valério no meio do caminho, entre um pequeno jazigo atro e uma solene escultura de anjo; ficou a contemplar a beleza da jovem desconhecida e de sua música lúgubre, que ressoava pela solidão do velho cemitério... até que ela percebeu a sua presença. Logo, ela cessou a música, e pôs-se vagarosamente a andar em direção a ele, e ele fez o mesmo. Ouvia-se apenas o som dos coturnos e o farfalhar das folhas secas por eles pisadas.
A uns 4 metros de distância, os dois pararam, entreolhando-se soturnamente. Então, Valério disse:

"Se tu me permitires perguntar-te,
Dize-me por qual nome hei de chamar-te."

E ela respondeu:
"Permito-o... embora não conheça a ti:
Chamaram-me Juliette quando nasci."

VALÉRIO:

"E por que jazes nesta noite fria,
Ó Juliette, encantadora donzela,
Solitária e imersa em melancolia,
A chorar música tão doce e bela?"

JULIETTE:

"Oh! Choro tal canção mesta e sombria,
Porque lágrimas já não tenho mais!
Sou tão triste... era feliz e não sabia,
Antes de principiarem meus ais...

Morreu-se a pessoa que eu tanto amava;
Mui jovem partiu e deixou-me só...
Para nos casarmos pouco faltava,
E agora, ai de mim!, ele é apenas pó!"

VALÉRIO:

"Ah, como a tua perda eu lamento!
Quisera trazer-te alegria e alento..."

JULIETTE:

"Agradeço-te, pois, a compaixão,
E o anelo de findar o que não finda,
Pois creio eterna minha escuridão!
Mas e teu nome? Não disseste ainda..."

VALÉRIO:
"Ah, claro! Perdão! Chamo-me Valério.
Nunca eu te vira neste cemitério..."


Juliette suspirou e abaixou a cabeça, mas Valério percebeu que dos olhos dela escorriam grandes lágrimas, que brilhavam como diamantes. Então, ele, disse:

"Ai! Por que em demasia tu pranteias?
Perdoa se eu disse algo de errado!
Se quiseres, vou-me, se é o que anseias...
E peço desculpas se a ti enfado."

E sorrindo afavelmente para ele; com a face pálida replena de pranto, ela disse:

"Não! perdão pelo meu cimério pranto!
Mas teu nome é dele o mesmo nome
E deveras me lembras ele tanto...
Ah, tal morte a vida já me consome!
Adeus! Devo ir, senão afogar-me-ei
Nestas lágrimas tantas que chorei!..."

E Valério respondeu:

"Ah, entendo... meu nome causa-te pranto...
Então, adeus, Juliette... ou até logo...
Espero ver-te amiúde no entanto...
Isto é... se deixares... é o que rogo..."


Ela despediu-se com o olhar e foi andando até perder-se na escuridão. E ele, tristemente, foi até o féretro em que ela há pouco estava sobre, e viu uma inscrição: "Aqui jaz Valério Hugo de Vigny, 1862 - 1880". Assim chamava-se o noivo dela, e com apenas 18 anos partira. E isto o fez refletir bastante sobre a fragilidade da vida, o mistério da morte, e sobretudo sobre... o amor! Ele a amava e não sabia por que... Conhecera-a há tão pouco tempo e num momento tão triste e fugaz... e ele nunca mais tornou a vê-la, a pobre Juliette; entretanto sempre sonhava com ela e ouvia ecoar em sua mente aquela canção plangente que ouvira no cemitério, sob o luar.
Naquela noite, na alma de Valério, onde por muito houvera um vazio, surgiu o amor... mas à medida que o tempo passava, e ele não a via novamente, a solidão que antes tinha, dava lugar à melancolia; e o fogo do amor que inicialmente aquecia, passou a queimá-lo em demasia...
Passado um ano, aquela junção de melancolia e amor sufocava-o, consumia-o. Por muito, ele a procurou, e não achou rasto algum... até que decidiu que se não pudesse encontrá-la em vida, encontrá-la-ia quiçá na morte... E certo dia, já passando da meia-noite, enforcou-se, e morreu na solidão daquele triste cemitério...


Renan Caíque